Domingo, 31 de agosto de 2014
Novo Doe
15.10.07 - Brasil
A difícil arte de ensinar
Zacharias Bezerra de Oliveira
Jornalista. Mestrando do Progr
Adital

A educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces.
Aristóteles

Refletindo sobre os desafios do cotidiano na sala de aula e a prática docente

O filme O Triunfo (2006) relata os desafios epistemológicos, sociais, estruturais e até ecológicos da relação professor-aluno. O filme é baseado na vida de Ron Clark (1994), um professor bem sucedido na Carolina do Norte (EUA), que parte para novos desafios e vai dar aulas no Harlem, em Nova York, Estados Unidos. A primeira barreira que o professor tem que vencer é a disputa pelo cargo, que, conforme vemos no filme, não é fácil e deixa a muitos pelo meio do caminho. Trazendo para a nossa realidade, lutar contra as regras do diretor e as normas da instituição, nem sempre as mais pedagógicas, é outra árdua batalha que professores e professoras enfrentam no seu dia-a-dia. Depois as resistências dos próprios alunos, que, muitas vezes, não possuem noções de limites, direitos e deveres, nem de ecologia humana.

A pedagogia de Paulo Freire (1983) requer um educador ou educadora “percebedor” e “problematizador” da realidade. Ron Clark tem o mérito de ter escolhido para ensinar a “turma-problema” da escola. Mas ele rapidamente se dá conta que é preciso conhecer a realidade e respeitar a individualidade de cada aluno, de cada aluna. São necessários envolvimento, inclusive emocional, um código de convivência, ajuda e respeito mútuos. O ensino não é uma via de mão única. Como diz Paulo Freire: “Não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes”. Todos nós temos algo a aprender e a ensinar. Cabe aos mestres mostrar isso, como muito bem o faz o protagonista do filme, ao pedir para aprender a pular corda com seus alunos e alunas na hora do recreio, quando é repreendido pelo diretor por “comportar-se como criança”. É a partir daí, com a ajuda da música, do teatro, da arte e da ação-razão que o professor Clark consegue, pouco a pouco, o envolvimento da classe e transforma-a na melhor turma do ano. Ensinar é uma arte de difícil compreensão.

Múltiplos olhares

Assistido por cerca de trinta alunos da disciplina Didática do Ensino Superior na Faculdade de Educação (FACED-UFC) o filme teve tantas interpretações e sentimentos quanto o número de pessoas presentes. Quem já havia visto o filme e não gostou, conseguiu agora, com um “novo olhar” enxergar a necessidade do professor, da professora ser mais “experimentalista” e de sempre “buscar novas abordagens”. O filme mostra que ensinar é uma busca de valores, compreensão e relações e que é preciso entender bem o nível de compreensão da linguagem de quem se está ensinando. Usar a família como referencial nem sempre é funcional porque muitos não têm essa convivência no seu dia-a-dia. A primeira lição é buscar conhecer a realidade do local, da escola de estudantes, fazendo uma parceria escola-professor-família. É preciso, sobretudo, “ser apaixonado pelo que se faz”, como o professor Clark.

A cena inicial do filme mostra Ron Clark em seu primeiro dia de aula tirando um garoto do cesto de lixo, castigo que recebera por ser “incapaz de aprender”. Clark apresenta-se, diz seu nome e demonstra que ela é capaz de aprender pedindo-a para repetir seu nome. Todos nós precisamos de motivação e o aprendizado deve ser o mais aproximado possível da “realidade” ou do “sonho” de cada um, de cada uma. A cada vitória um reconhecimento. Isso ajuda a elevar a auto-estima. A “vibração” é muito importante no trabalho educativo. É preciso saber respeitar a individualidade e aproveitar o potencial de cada aluno ou aluna. “A melhor avaliação é a presença do aluno na sala de aula”. É necessário também saber mesclar as doses certas de “amor, afetividade e autoridade”. Fica claro que o processo ensino-aprendizagem exige “tempo e disponibilidade”. Não é correndo de uma sala para outra ou de uma escola para outra que se consegue fazer um bom ensino. E isso requer uma mudança de paradigmas não apenas de professores, mas também das instituições e uma renovação dos currículos.

O filme é “fantástico, comovente, inspirador”. Ele mostra que ter um bom currículo profissional não é garantia de poder “solucionar os problemas de todos os cantos”. E também que para se “trabalhar com as diferenças é preciso muita atenção”. Cada problemática social exige um tipo de trabalho. Ensinar é transmitir, um “conhecimento voltado para o desenvolvimento das humanidades”. Aquilo que Kormondy e Brown (2002) chamam de ecologia humana. Há muitas “correlações” na arte de ensinar e “o professor não pode cruzar os braços”, pois os estudantes têm uma enorme capacidade de fazê-lo melhorar como pessoa. “Ser professor para o homem é uma experiência sui generis, pois, muitas vezes, ele deve enfrentar o preconceito dentro de sua própria casa”. Ron Clark resgata a importância de se estabelecer vínculos e diz textualmente: “mais importante que um teste é aquilo que se constrói no dia-a-dia da sala de aula”. A “dedicação do professor Clark” opera milagres e faz com que ele consiga fazer algo positivo com os piores alunos de uma escola, tirando-os, literalmente, da lata de lixo.

“Positividade, criatividade e determinação” são fundamentais para que o educador e a educadora mantenham a sua “capacidade de não se desencantar com a realidade, mesmo quanto tudo ao redor é contraditório”, inclusive uma infra-estrutura de recursos para se dar aula. Há um limiar entre a obrigação e a devoção. Às vezes “subir na carteira, fazer caretas, jogos teatrais e olhar no olho do aluno, da aluna” são ações necessárias para se poder fazer ouvir e entender na sala de aula. Há outro filme muito parecido (O substituto) que suscitam a pergunta: “Será que eu teria essa habilidade, capacidade, desejo de fazer tudo que este professor fez?” Porém, “se ele conseguiu, por que eu não conseguiria?” Ensinar é um desafio novo a cada dia. É preciso saber o que você realmente quer e ter muita “criatividade, inovação para levar sonhos para a sala de aula”. Tem que entrar na pele, reconhecer que é pedagogo, pedagoga. Professor, professora é aquele que “tem a educação como um convite”. É ter o “brilho nos olhos” que faz do mestre um verdadeiro educador.

Professor, professora de verdade é aquele ou aquela que bate na sua porta ou abre suas portas para os alunos e alunas. Esta é “uma experiência que jamais se pode esquecer”. A “valorização que o mestre dá a um aluno ou aluna é o que há de mais importante”. Um incentivo a fazer novamente um teste em que se falhou, uma ajuda, material que seja, é sempre “uma luz para as pessoas que se encontra pelo caminho”. Ser professor, ser professora de verdade é saber desenvolver novas estratégias através de músicas, paródias e poesia. Cada caso é um caso, por isso é importante conhecer a realidade, pode-se “aprender mais sendo voluntária que na Faculdade, mas ser professor, professora de verdade é difícil!”

Momentos como este de assistir a um filme assim na sala de aula “ultrapassam qualquer técnica, qualquer teoria; esta revelação, este choro” acendem em nós uma chama. “A busca do professor, da professora é um trabalho desafiante; cada nova turma é uma estréia; eles precisam ser artistas e praticar a arte de ensinar-aprender e aprender junto”. É essencial uma “superação do estigma do fracasso, sentido de pertencimento ao grupo na sala de aula, algo além das cadeiras e paredes, e valorização das inteligências múltiplas”. É um “trabalho solitário”, pois, muitas vezes, “falta solidariedade” até dos colegas de trabalho.

Houve até quem não gostasse do filme, mas preferiu falar só no final, embora tivesse sido a primeira pessoa convidada a se pronunciar. “Me incomodou; me angustiou e senti um pouco de racismo e preconceito” na história. Mas que seria do mundo sem a diversidade, não é mesmo?

Este artigo é um apanhado do que foi visto e escutado na sala de aula do curso Didática do Ensino Superior do dia 27/09/2007, na FACED-UFC, segundo os olhos, ouvidos e emoções de seu autor. É uma homenagem aos mestres da disciplina: Luiz Botelho, Ana Iório e Paulo Barguil pelo dia do professor, e da professora, a todos e todas que fazem o PRODEMA-UFC, especialmente a professora Vládia Pinto Vidal de Oliveira por sua eficiente orientação, aos colegas da disciplina e a todos e todas que se dedicam e se sacrificam no trabalho da educação no Estado do Ceará. Muito obrigado!

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 12a edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
KORMONDY, Edward J. BROWN, Daniel E. Ecologia Humana. São Paulo: Atheneu Editora, 2002.

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